Tatiana Rolim
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Meu andar sobre rodas -1ªEdição
Este livro é uma autobiografia de uma adolescente de 17 anos de idade que teve seus planos e ideais atropelados por um caminhão, que literalmente a deixou paraplégica com marcas e seqüelas irreversíveis. É um relato de dor, de lágrimas, de muita emoção , retrato de uma história real que envolve também lutas , vitórias, derrotas, e sofrimento de alguém que lutou pela sobrevivência na UTI de um hospital e de luta de sobrevivência numa sociedade repleta de preconceitos e paradigmas que ditam como o ser humano “ especialmente a mulher “ deve ser e que eu me senti profundamente compelida a contar aqui por tudo que aprendi e vivi.
É sem dúvidas um resumo de conquistas do meu reaprender á andar, que engloba o amar em sua essência de sentimento e de prazer sexual, falo dos mitos que cercam a realidade humana quanto a feminilidade nos impede de conquistas , é também um resumo de sucesso que traz o verdadeiro sentido do existir, independente da condição física do ser humano, quer seja ele portador de alguma deficiência ou não por que o que prevalece é a alma. E esta é intocável.
PREFÁCIO POR JOÃO CARLOS PECCI
RODAS DE TATIANA
Rodas de Tatiana: Giram, deslizam, empinam a menina, quais lindas pernas bailarinas.
Tatiana é a síntese humana desse imenso Brasil de tantas periferias. Perde o fôlego, tropeça, sai do prumo. Desgoverna-se, decompõe-se, dilacera-se. Quando parece excluir-se do mapa, eis que se reanima, se redime, reconstrói-se. Aprendiz dos próprios erros, agiganta-se a partir dos engodos burilando o íntimo sofrimento.
Tinha apenas 17 anos, essa menina: audácia, adolescência, álibis, alquimias. Volúpia, improvisos, suor: insólita espuma a incandescer o gelo. O que se quer com 17 anos? Ah, quanta ironia! Quer-se tanger a alma da lua, destilar a gota de orvalho, fazer enrubescer o monge. Mudar a trajetória do sonho antes que vire rotina, romper a barreira do som, deitar-se na pedra mais alta da montanha. Ou simplesmente acariciar os pêlos do cãozinho inseparável, ou chupar um sorvete lambuzando-se de um erotismo sem controle.
Naquela manhã ela queria apenas dar uma volta de bicicleta. Distraiu-se, desgovernou-se. Topou com um caminhão. Quase uma reprodução de Ayrton Senna contra o Tamborello. Meu Deus, e ela nem usava capacete... Sobreviveu. Sobreviveu ao esfacelamento, às hemorragias, ao coma, aos enxertos. Restou-lhe, porém, a cauda mais agreste da colisão: ficar sem andar. Mais que isso: ter de reformular um corpo desmedido, crivado de atrofias, preservar a vaidade feminina, restaurar a sexualidade, enfim, inventar uma natureza nova. Conseguiu. Refez-se mulher entre tantas lágrimas, agruras e pesadelos. E foi além, a “Tatiana do caminhão”: despojou-se de si mesma transformando a alma em palavras, entalhando cada letra deste livro no feitio de uma saudade adormecida, na réstia de um sonho recuperado, nos moldes de um desejo renascido.
Há dois caminhos para um escritor atingir a autenticidade: aprimorar a técnica ao longo de muitos livros, ou esbanjar intuição na singeleza da primeira tentativa. Tatiana, de pronto, deixou fluir a simplicidade das frases, a emoção sem retoques, o lúdico a faiscar alívios numa seriedade de meter medo. Livrou-se da dor fazendo-a deslizar pelos dedos em grãos de entusiasmo até vê-la erigir-se como castelo de areia logo cristalizado em pedras egípcias, tão forte a reconstrução da vida.
Para uma mulher paraplégica, despojar-se em palavras implica despetalar sua nudez envolta em cicatrizes, fedores e mínguas. Significa ver ruir movimentos de coxas e pernas, insensíveis às mãos que se procuram à deriva e se encontram à distância. E não tapar essa imagem, ao contrário, torná-la nítida e crua como lâmina que afina mas não fere. Pressupõe lidar com a privação da fralda trocada pelo namorado, com o amor interrompido pela urina ou pelas fezes, com o lenço na cabeça a esconder as perdas dos cabelos.
Ah, de que valeria a vida não fosse a consciência da fragilidade a exalar por todos os poros a necessidade da luta para recuperar um corpo sem escoras, para mexer um braço inerte, para vencer espaços intransponíveis, para mudar diante do espelho a imagem da compaixão.
A luta de Tatiana tornou-se a dos pais, da família, dos vizinhos, dos amigos, do namorado, dos médicos, dos fisioterapeutas. Objeto e objetivo desse verdadeiro Iaço humano, Tatiana ia girando a vida num carrossel de conquistas. No Centro de Reabilitação aprendera a valorizar a fisioterapia resgatando o franco sorriso de menina e a confiança em si mesma. Acreditava. Conseguir segurar um grão de milho, voltar a escrever com a mão direita, usar o braço para apoiar-se, abraçar. São simples minúcias que empolgam e fazem cochichar com Deus. Tatiana acostumara-se, não só a cochichar, mas a organizar festas com Ele. As pernas não andavam, mas ficavam na vertical vestidas por um aparelho. Readquiriam volume, sinuosidades, e já alimentavam a proeza do amor e do prazer.
Liberdades outrora longínquas cresciam como atalhos à dignidade restabelecida no curso de Psicologia, no emprego, no calor dos amigos em meio à pulsação das avenidas, dos barzinhos, das boates, dos estádios, dos cinemas, dos teatros. Viver deixara de pairar como dúvida angustiante para se revelar na concreta execução física da alegria, tanto nos divertimentos quanto no trabalho e no amor. Sobre rodas, Tatiana não anda, e sim desfila a graça de sua dedicação à vida, transportando a garra da periferia que sacoleja no ônibus, no trem, no metrô a vontade de prosseguir, seja qual for o roteiro da existência e a forma da locomoção.
Ah, se todos tivessem a coragem de se mostrar num livro, as neuroses se definhariam em prol da transparência das almas e dos corpos. Obrigado, Tatiana!
João Carlos Peccí, novembro de 2001.
João Carlos Peccí, artista plastico e escritor.
Autor entre outros de Minha profissão é andar e Velejando a vida.
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